Porque você não deveria ler a Bíblia como se fosse lei

Porque você não deveria ler a Bíblia como se fosse lei

Tempo de leitura: 5 minutos

Você costuma ler a Bíblia como se fosse uma lei escrita pelo Todo-Poderoso?

Então, tenho uma revelação que talvez mude a percepção que você tem da Bíblia: a verdade é que ela contém diversas inverdades, e eu posso provar.

A razão disso está nas diversas traduções que a mesma sofreu ao longo do tempo.

Veja, a Bíblia é uma composição de diversos textos antigos, em línguas como hebraico, aramaico e latim, que são muito diferentes das atuais. Até mesmo o hebraico sofreu diversas modificações ao longo do tempo.

Se você observar bem, perceberá que até nosso português atual sofreu diversas modificações, e isso é um grande problema.

Suponha que determinado livro da Bíblia tenha sido escrito originalmente em hebraico, como por exemplo Gênesis, que tem sua autoria atribuída a Moisés. Alguém pega esse texto e o traduz para o latim, para ser lido por pessoas na Europa. Um espanhol que fala latim pega esse mesmo texto e o traduz para seus conterrâneos. Após isso, um espanhol que fala português o traduz para nosso idioma.

Percebe como isso pode, e de fato altera vários sentidos do que foi escrito?

A língua é um organismo mutável, e ela não é apenas um conjunto de palavras, mas sim o significado que carrega. Em muitos casos, não há nem palavra correspondente para a tradução.

Você sabia que várias línguas não possuem uma palavra que signifique “saudade”? No inglês, eles usam “miss” para expressar saudade, mas “miss” quer dizer falta. Ou seja, uma simples palavra pode não ser bem traduzida; imagine um texto inteiro, 66 livros?

Há, por exemplo, uma tradução que hoje é muito discutida por linguistas como tendo sido incorreta.

No relato da criação do mundo, no livro de Gênesis, o trecho em que Deus cria “o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança”, é seguido da frase “e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra”.

Porém, a palavra traduzida como “dominar” tinha um outro sentido em hebraico. Não o sentido de que nós, humanos, somos superiores, mas o sentido de que o ser humano deveria cuidar da criação. Uma palavra melhor em português seria “que lidere sobre os peixes”.

O mais curioso é que o cerne de diversas religiões evangélicas atuais é o domínio do homem sobre a natureza. Não é interessante?

Se você conversar com um tradutor, entenderá que traduzir é uma ciência inexata, porque perde-se muito do texto original. Outro exemplo: será mesmo que a mulher é um objeto do homem?

Em 1 Coríntios 7:1-25 é dito: “A esposa não é dona do seu próprio corpo, pois ele pertence ao seu marido. Da mesma maneira, o marido não é dono do seu próprio corpo, pois ele pertence à sua esposa”.

“Pertence”? Palavra que para nós hoje conota posse; aquilo que me pertence é meu. Na verdade, se olharmos textos antigos e outras traduções, perceberemos que o texto fala de fidelidade. Que o seu corpo seja “dado sexualmente” apenas para o marido.

Mas, novamente, diversas religiões entenderam isso como o homem sendo dono da mulher. Hoje você pode ler e achar que não faz sentido, mas por anos foi assim.

Não que o trabalho dos tradutores seja ruim; aliás, somente por causa deles é que milhares de pessoas comuns tiveram acesso à religião. Acabou-se o tempo da missa em latim.

O trabalho de tradução é lindo e inclusivo, mas também tem seu lado negativo, e esse é o ponto.

Não podemos levar a Bíblia, a dita palavra de Deus, 100% de forma literal. É preciso que a gente aprenda a interpretar. Pense: o que Deus queria realmente dizer com isso? Qual o significado? Que mensagem se perdeu ao longo do tempo?

Além disso, as próprias línguas evoluíram, e muitas palavras mudaram de sentido.

Algumas editoras de bíblias até fazem traduções de versões mais antigas em latim e hebraico, para tentar ser mais fiéis ao original.

Para complicar ainda mais, vários livros da Bíblia são uma coleção de poesias, como Provérbios, o que atribui uma dificuldade ainda maior de interpretação. Tente ler uma poesia de um autor contemporâneo e veja do que estou falando.

Acompanhe meu raciocínio, em Provérbios 26:10 uma única palavra dificulta toda a tradução. Tudo começa com a primeira palavra, o termo hebraico “rav” (em hebraico רב), que em geral significa “muito”, mas que também pode significar “flecheiro” ou “mestre”. Por se tratar de um provérbio, que não tem necessariamente uma conexão com o provérbio anterior ou o seguinte, não se sabe ao certo que assunto é tratado em Pv 26:10.

Olhe algumas traduções do texto para entender:

“Toda a carne dos tolos é grandemente afligida, porque a fúria deles é reduzida a nada”.

Septuaginta

“A carne do tolo sofre muito, e o bêbado passa por cima do mar”.

Targum

“O juízo determina as causas, e aquele que impõe silêncio ao tolo alivia a ira”.

Vulgata

“Um bom mestre faz a coisa bem feita, mas quem contrata um incompetente acaba no prejuízo”.

Lutero

“O grande Deus que formou todas as coisas recompensa tanto o tolo quanto os transgressores”.

King James Version

Estamos falando de apenas um trecho; imagine milhares de palavras. Percebe?

Devemos muito a pessoas como João Ferreira Annes d’Almeida, um português nascido em 1628, que, aos 17 anos, conseguiu uma proeza: foi o primeiro a traduzir para o português os livros considerados sagrados que formam a Bíblia.

A grande mensagem aqui é: a Bíblia é um texto a ser interpretado, estudado e questionado, e não uma lei a ser seguida.

Até porque, se ela for uma lei, tem tantas interpretações…

Com informações de Ultimato Online, BBC e Bible.