Além da Palestina: Territórios sagrados destruídos em nome de Deus

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Quando você pensa que o conflito entre Israel e Palestina é o auge da insanidade religiosa, eu venho te lembrar que a humanidade já destrói território sagrado há milênios — e o faz com a mesma devoção com que acende vela pra pedir bênção.

A verdade é que a briga por terra santa é mais velha que a sogra da rainha Elizabeth. E, pasme: quase sempre é Deus quem leva a culpa. Ou melhor, os vários deuses — porque cada povo resolve que o seu é mais verdadeiro, mais legítimo e, claro, mais territorialista.

Vamos fazer uma rápida peregrinação histórica por alguns locais que um dia foram considerados sagrados. Até alguém resolver que sagrado mesmo é o direito de destruir o que é do outro.

🕍 Jerusalém: o delivery de destruição divinamente aprovado

Começamos com o rei da bagunça sagrada: Jerusalém. O Primeiro Templo foi destruído por Nabucodonosor, em 586 a.C., quando o Império Babilônico resolveu que já tinha espaço demais e precisava de um pedacinho judeu. Depois veio o Segundo Templo, que os romanos fizeram o favor de arrasar em 70 d.C., porque religião e império sempre caminharam de mãos dadas — uma segurando a espada, a outra a Bíblia.

Hoje resta o Muro das Lamentações, onde os fiéis choram. Chorariam menos se soubessem que esse tipo de destruição é tradição milenar.

🏛️ Palmira, Síria: destrua um templo e ganhe pontos com o califado

Avançando um pouco, chegamos à era moderna da barbárie sagrada: o Estado Islâmico. Aquela galera simpática, sabe, que usa hijab? Em 2015, eles destruíram o Templo de Baalshamin e o Mosteiro de Mar Elian em Palmira. Mas não ficaram por aí: saquearam sítios arqueológicos inteiros — porque, aparentemente, Allah curte um mercado negro de artefato antigo.

Tudo em nome da fé. Sempre em nome da fé.

🕌 Grande Mesquita de Nuri, Iraque: mais um patrimônio pra conta do fanatismo

Construída no século XII, famosa pelo minarete torto e pelas orações retas, a mesquita foi implodida pelo Estado Islâmico em 2017. Porque nada mais sagrado do que destruir o próprio templo quando se está perdendo a guerra. Estratégia divina, só que não.

🏛️ Alexandria: os cristãos também sabem brincar de destruir templo

Você achava que só muçulmanos e judeus entravam nessa dança litúrgica da destruição? Pois saiba que, em 391 d.C., os cristãos liderados pelo imperador Teodósio fizeram questão de derrubar o Serapeu de Alexandria, símbolo do sincretismo greco-egípcio. Foi a forma deles dizerem: “Aqui só entra Jesus, o resto é idolatria”. Cancelamento do politeísmo, versão Antiguidade.

🕌 Meca: demolição sagrada patrocinada pelo petróleo

Agora, olha a ironia: Meca, o local mais sagrado do Islã, desde 1985, teve 95% de sua arquitetura histórica demolida. Por quem? Pelos próprios sauditas, claro. Alegaram combate à idolatria, mas o shopping novo e os hotéis cinco estrelas no lugar dizem outra coisa. Porque se tem algo mais poderoso que Alá no Oriente Médio é o dólar.

🇧🇷 Brasil: terreiro quebrado também é território sagrado destruído

Aqui em Pindorama, a coisa também fede a incenso queimado à força. Em 1912, em Alagoas, houve a chamada “Quebra de Xangô”, onde milícias religiosas invadiram terreiros e queimaram objetos sagrados. O Brasil já era especialista em intolerância antes mesmo de inventar esse nome bonito pra perseguição racista disfarçada de fé.

🏛️ Cartago: Juno Celestial cancelada pela Igreja

Você achava que o cancelamento era invenção da internet? Pois saiba que Juno Celestial, a deusa romana, já foi devidamente “cancelada” há mais de 1.600 anos. Seu templo em Cartago, um dos mais importantes da Antiguidade, foi fechado em 399 d.C. e completamente destruído em 421 d.C..

Quem fez isso? Os cristãos, claro. Naquela época em que o amor ao próximo incluía derrubar o templo do próximo. Tudo em nome da vitória do cristianismo sobre o paganismo — como se deuses antigos pudessem ser derrotados por pedrada e decreto imperial.

Se Juno estivesse viva, talvez abrisse um processo no Tribunal de Haia por intolerância divina.

🧱 Sítio do Porto e Gruta Kamukuaká: o capitalismo também reza, mas pro Deus Mercado

Dois casos brasileiros que não envolvem cruz nem meia-lua: o Sítio do Porto (sagrado pra povos do Tapajós) foi destruído pra virar terminal da Cargill. Já a Gruta de Kamukuaká, cheia de história e mística indígena, virou pó — prova de que o agronegócio também tem seus profetas: os tratores.

Ucrânia: igrejas bombardeadas entre um míssil e outro

Desde o início da invasão russa, quase 500 lugares de culto foram destruídos. Igrejas, sinagogas, templos, todos alvos fáceis no jogo de xadrez geopolítico. A guerra, afinal, tem mais fé em sua própria força do que qualquer pastor com microfone.

Apesar de não ser uma guerra nomeadamente religiosa, é também uma forma de destruir sua cultura, sua religião.

O problema não é Deus — é quem fala em nome Dele

A destruição de territórios sagrados revela algo que os religiosos mais fanáticos não gostam de admitir: ninguém é mais destruidor da fé do que os próprios fiéis. A fé, quando vestida de autoridade e armada com ideologia, vira uma arma — e os templos viram escombros.

Israel, Gaza, Meca, Cartago, Xingu… a lista é longa e só cresce.

No fim, a única coisa verdadeiramente sagrada parece ser o direito de destruir o sagrado do outro, mas claro, em nome de uma divindade superior.

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