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Amigos, venho relatar para ti um fato que aconteceu comigo recentemente: eu me apaixonei por uma mulher do Candomblé, uma mulata mais alta que eu, de pele sedosa, cabelos crespos e um bumbum redondo como um xequerê.
Não que ela seja perigosa, mas se um dia você acordar profundamente apaixonado, levando café na cama, cantando Djavan dizendo: amar é um deserto e seus temores, vida que vai na sela dessas dores, não sabe voltar, me dá teu calor, e lavando a louça sem ninguém pedir…
Você nunca saberá se é amor ou feitiço. E o pior: você não vai se importar.
Vivi em uma constante dúvida: ela me ama ou fez um trabalho para me amarrar?
Eu, que mal sabia a diferença entre ebó e acarajé, fui fisgado por uma dessas mulheres que andam descalças, falam com orixás e têm um perfume que parece ter sido feito com os fluidos da própria deusa do amor.
No primeiro encontro, ela me perguntou meu orixá como quem pergunta o signo. Eu, que mal sei meu ascendente, respondi que era de Libra na casa da burrice mesmo.
Ela riu. Eu me apaixonei. Já era.
A amiga dela, uma jovem de olhos penetrantes e voz que parece sair diretamente do centro da Terra, me serviu um chá.
“É de boldo?”, perguntei. Ela respondeu “é de Ogum”. Tomei. Era amargo.
Estar com uma mulher do Candomblé é ter medo do que ela faz com aquela vela que fica acesa até de manhã. Mas saber que se Iemanjá permitir, amanhã a gente se casa.
É respeitar os dias de oferenda e nunca, jamais, mexer naquele potinho de barro que ela deixou na porta de casa “pra proteção”.
Essas mulheres não rezam baixinho nem pedem permissão pra existir. Elas dançam para Exu enquanto você ainda está tentando entender se é pecado comer carne na sexta-feira santa.
E o mais incrível: elas te fazem sentir como se o universo fosse mais sensato com elas por perto. Mesmo quando te olham nos olhos e dizem: “Hoje sonhei contigo. Tava sem camisa. Era recado do orixá.”
No fundo, é maravilhoso. Você aprende a respeitar o que não entende. E a entender que amor também é isso: se render. Mesmo que com um pouquinho de medo de virar galinha preta num ritual noturno.
Mas se um dia você ouvir três batidas na porta, sem ninguém do lado de fora… apenas agradeça. Pode ser Oxóssi te protegendo. Ou pode ser ela avisando que acabou…
E você nunca mais saberá como poderia ter sido.